Vamos dar o valor que o hinduísmo merece também. No sentido de que é uma cultura e uma religião que tem, no mínimo 4000 anos. Embora seus manuscritos não datem deste tempo; pois trata-se de um corpo de conhecimento transmitido oralmente, isto não quer dizer que ele não estivesse lá. Lá onde? Poderíamos nos perguntar. Isso, também, não é o ponto central. Não há, aqui, ninguém clamando autoria ou localização para poder assumir controle sobre o tema.

Muitas destas discussões são inflamadas, hoje em dia. Pessoas clamando esta cultura para si mesmas e querendo associá-la ao seu lugar de nascimento. Isto, aqui, pouco importa. Há pesquisas que indicam que o sânscrito, língua na qual todo este conhecimento está estabelecido, havia sido encontrado na Síria, muito antes de chegar à India.

O fato é que esta cultura produziu homens e mulheres que contribuíram, de forma extraordinária, à civilização, através da religião (do hinduísmo, desenvolve-se o budismo e o sikhismo), filosofia, ciências, artes, física, medicina e literatura.

Esta cultura trouxe o zero na matemática, xadrez, yoga, o uso de temperos, a sabedoria do uso de medicamentos à base de ervas, etc.

Estas são algumas definições dadas (a título de curiosidade, para todos nós) por hindus e não-hindus em um livro do acadêmico Julius Lipner, chamado “Hindus: their religious beliefs and practices”

1- [O Hinduísmo] é ao mesmo tempo um estilo de vida e um sistema social e religioso altamente organizado… um tanto livre de quaisquer afirmações dogmáticas relativas à natureza de Deus. Os próprios hindus chamam sua religião de sanātana dharma, modo de vida “dharma eterno”] … e qualquer escritor sobre o hinduísmo que aceite [esta] definição … deve escolher entre produzir um catálogo que forneça … o número máximo de fatos … ou … tentar, por sua conta e risco, destilar de toda a massa de seu material a bela essência que ele considera ser o terreno imutável a partir do qual cresce a selva proliferante que parece ser o hinduísmo ‘(Zaehner 1966:1-3).

2- A aceitação do Veda como escritura revelada é certamente o critério mais básico para qualquer pessoa se declarar hindu (a autodesignação preferida do hinduísmo nas línguas indianas é Vaidika dharma, a religião do Veda) (Klostermaier 1989:16).

3- Mas a próxima descrição parece repudiar este critério antes de passar a outras coisas. ‘Dentro do Hinduísmo, as escrituras sagradas de uma pessoa não são, necessariamente, de outra pessoa. Este indivíduo pode atribuir um papel menor a um deus a quem outro indivíduo adora com profunda devoção como… Senhor do mundo… Mesmo a doutrina da reencarnação… não é uma parte, universalmente, aceita do ensino e da fé hindu… Para o governo indiano, todo indiano é, automaticamente, um hindu, a menos que ele ou ela afirme especificamente adesão a outra religião… [O hinduísmo não é (apenas) uma religião, mas] uma coleção de religiões… contendo elementos de tradições compartilhadas, e religiões que continuamente influenciaram umas às outras ao longo dos tempos, e que contribuíram conjuntamente para formar a cultura da Índia’ (von Stietencron em Küng et al. 1987:138-43).

4- “O sistema de castas, embora intimamente integrado à religião [Hindu], não é essencial para ela… Mesmo a profissão de crença na autoridade do Veda não é essencial” (Brockington 1981: 4-6). Do ponto de vista da autoridade do Veda, esta afirmação discorda do nº 2, mas no que diz respeito à casta, a próxima descrição está em desacordo com esta.

5- ‘Casta é a forma hindu de organização social. Nenhum homem pode ser hindu se não pertencer a uma casta… Aqui, então, temos a teoria do mundo hindu em todos os seus fundamentos permanentes: Deus é real, o mundo sem valor; o único Deus é incognoscível, os outros deuses não devem ser desprezados; os brahmanes, com seus Vedas, a única autoridade religiosa; a casta é uma instituição divina, servindo como principal instrumento de recompensa e punição; homem condenado a repetidos nascimentos e mortes, porque toda ação leva ao renascimento [inconsistente aqui com o nº 3)(Farquhar 1913:214-16).

6-‘O Hinduísmo pode ser descrito como muitas religiões… e também permeia a vida Hindu tal como é vivida no mundo em todos os cantos e recantos… Apesar das suas inconsistências demasiado óbvias, o Hinduísmo é um todo. Mesmo aquelas características que parecem não ter nenhuma ligação com a religião, tal como é entendida hoje, decorrem do seu caráter básico como ramificações naturais… O Hinduísmo difere fundamentalmente do Cristianismo porque para os seus seguidores não é uma alternativa ao mundo, mas principalmente o meio de apoiar e melhorar a sua existência nele… A salvação nunca é o objecto das observâncias religiosas e da adoração dos Hindus’ (Chaudhuri 1979:1-10); o teor desta passagem está em desacordo com a fuga do mundo, a única causa nobre para o homem desperto’ etc. do trecho anterior.

7- “As três … divisões do Vedānta, das Upanișads, do Brahma Sūtra e da Bhagavadgită … formam juntas o padrão absoluto para a religião hindu … Mokşa salvação, libertação final] é a realização espiritual. O Dharma Hindu (ou ensinamento sobre o modo de vida correto]. Mokșa é … a realização do Ser em nós no coração do eterno. Isto é o que dá o máximo satisfação, e todas as outras atividades são direcionadas para a realização deste fim’ (Radhakrishnan 1980:18);

8- Observe que, entre outras coisas, a próxima descrição insiste na aceitação da reencarnação como a marca do Hindu, em oposição ao 3. ‘Os hindus certamente diferem de nós [muçulmanos] em todos os aspectos… os hindus acreditam que não existe outro país senão o deles, nenhuma nação como a deles, nenhum rei como o deles, nenhuma religião como a deles, nenhuma ciência como a deles… Como a palavra de confissão, “Não há deus senão Deus, Maomé é o seu profeta” é o shibboleth do Islã… então metempsicose [reencarnação] é o shibboleth da religião hindu. Portanto, aquele que não acredita nisso… não é considerado um deles (Al-Biruni no século XI d.C.; ver Sachau 1888:17-50).

9- “O hinduísmo não depende de nenhuma crença religiosa específica… Nem o hinduismo do hinduísmo se baseia em considerações de comida e bebida… A base do hinduísmo, sua essência, são os deveres de casta e estágio de vida e o unicentrismo que os dirige… A tendência ao pensamento unicêntrico, a experiência da não-diferença última entre Agente e efeito, o conhecimento do engano da multiplicidade, compreendem o hinduísmo do hinduísmo. Encontramos seu início no Veda e sua conclusão no Vedānta’ (Brahmabandhab Upadhyay, 1861-1907; ver Lipner & Gispert-Sauch 2002:116-25).

10- “Existem claramente alguns tipos de práticas, textos e crenças que são centrais para o conceito de ser um” hindu “, e há outros que estão nos limites do hinduísmo… [Enquanto] O “Hinduísmo” não é uma categoria no sentido clássico de uma essência definida por certas propriedades; no entanto, existem formas prototípicas de prática e crença hindus. As crenças e práticas de um devoto de casta alta do deus hindu Viṣṇu, que vive em Tamilnadu, no sul da Índia, enquadram-se claramente na categoria “Hindu” e são prototípicos dessa categoria. As crenças e práticas de um devoto Radhasaomi no Punjab, que adora um Deus sem atributos, que não aceita o Veda como revelação e até rejeita muitos ensinamentos hindus, não são prototipicamente hindus, mas ainda estão dentro da esfera e categoria do hinduísmo. O devoto de Vișnu do sul da Índia é um membro mais típico da categoria “Hindu” do que o devoto Radhasoami’ (Flood 1996: 7).

Para encerrarmos este tema, precisamos entender que o termo hinduísmo, não é um termo cunhado pelo hindus. Não foi cunhado pelos habitantes do Vale do Hindu. Foi uma cultura estabelecida, primeiramente, na região entre o Paquistão (que era India) e a Índia. Essa região era conhecida como vale do rio Sindhu. Porém, os persas, que tinham grandes laços comercias com essa sociedade, não possuíam o fonema “Si” na sua língua. Portanto, eles chamavam Sindhu, de Hindu. O termo, hinduísmo, foi cunhado de fora para dentro. Sendo o hindu, aquele que morava às margens do rio Sindhu.