O dharma não é uma tábua de mandamentos como algo que aparece na bíblia. Esta palavra tem vários significados, como: ordem, lei, aquilo que une, religião, amor, papel. Tudo depende do contexto no qual ela se encontra. E como já vimos, pode ser absoluto, ou relativo.
Compreender o absoluto, normalmente, é mais fácil. O mais difícil é compreender aquilo que está se modificando constantemente. Muda constantemente, porque o que é relativo não é um manual engessado, mas se adapta àquilo que se estabelece como o bom senso entre todos. Aquilo que torna uma vida em sociedade possível. A nível pessoal, aquilo que, quando praticado, ajuda na conquista de uma maturidade, para reconhecer o livre de limitações; uma vida de yoga, karma-yoga, como veremos mais à frente.
Portanto, não se protege o dharma; pois o dharma não é uma coisa que possa ser quebrado ou queimado. Dharma, nesse contexto é o conjunto de regras que concordamos em jogar juntos o jogo da vida. Protegemos o dharmī; aquele que pratica o dharma, pois é ele o responsável pela transmissão destas leis e práticas às gerações seguintes. Ele é o exemplo que deve ser seguido. Portanto, nesse contexto, o dharma pode ser destruído, como é dito no sétimo verso, do quarto capítulo da Gītā: “dharmasya glāniḥ bhavati.”
Existe um verso, na Gītā, que diz isto: “Dharma rakṣati rakṣitaḥ”
O dharma protege aquele que protege o dharma.
É necessário compreender que o dharma não é um objeto, não é um livro de regras (embora exista um chamado dharmaśastra), que precisa ser protegido. Quem precisa ser protegido é quem pratica o dharma. E esta é uma das principais preocupações de Arjuna, antes da guerra do Mahabharata começar. Se todas aquelas nobres pessoas morrerem no campo de batalha, quem é que passará adiante este conhecimento? Ao mesmo tempo, significa proteger a mente. No sentido de mantê-la em em paz, em equilíbrio. Livre da pressão dos rāgas e dveṣas; mantendo o ahaṅkāra em seu lugar.
Oriundo de tempos imemoriais, o kula-dharma, por exemplo, que são as condutas prescritas para a estrutura de uma família, desapareceria com a guerra. Se aquilo que deve ser feito e aquilo que deve ser evitado em uma família for destruído, a família também se destruirá.
Além disto, existem outros desdobramentos deste dharma relativo, como o varṇa-dharma, āśrama-dharma. Varṇa, por exemplo, significa grupo (brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya e śūdra). Āśrama é relativo ao estágio da vida (brahmacārya, gārhasthya, vānaprastha e sannyāsa). Cada um com as suas próprias regras e particularidades.
Portanto, o dharma relativo, é uma tradição. Não depende de uma organização religiosa e nem de uma figura de liderança central, como um papa. É uma estrutura sustentada pelas famílias. Os mais velhos transmitiam aos mais novos. Uma sociedade só torna-se possível com o dharma.
Dentro deste contexto, o dharma pode ser esmiuçado ainda mais. Basicamente de três formas: sādhārana dharma, varṇa-āśrama-dharma e kula dharma.
Varṇa-āśrama-dharma e kula dharma, são chamados juntos de viśeṣa dharma; que, por sua vez, pode ser subdivido de várias formas. Viśeṣa dharma significa peculiar ou particular; aquilo que aplicado em determinadas situações, ou grupos. Por exemplo, na estrutura da sociedade védica, havia varṇa e āśrama.
Esta estrutura chamada varṇa, ou a popular casta, tornava possível estabelecer determinadas funções e papéis a um grupo particular de pessoas, com um conceito firme de dever. Desta maneira, a sociedade estava sempre provida de pessoas executando as mais diversas tarefas, de forma que não houvesse escassez para determinada função.
Āśrama dharma está relacionado com aquilo que deveria ser feito de acordo com o estágio da vida de cada um. Um brāhmaṇa, por exemplo, sendo ainda um estudante deveria observar uma determinada conduta. Depois de casado, esta conduta sofreria algumas mudanças; e assim por diante, à medida em que os estágios de vida se modificam.