Dṛṣṭānuśravikaviṣāyaviṭṛṣṇasya vaśikārasaṁjñā vairāgyam (1;15)
O desapego é chamado de domínio de quem é livre de desejo por objeto visto ou escutado.
O sūtra, aqui, se refere à pessoa que consegue ter um comando sobre os seus sentidos, com o objetivo de conquistar uma mente livre de distrações, necessária para que o conhecimento se estabeleça. Quando uma pessoa conquista a capacidade de deixar as suas preferências de lado (rāgas e dveṣas); ela está madura para se conhecer.
Tal pessoa, não é mais conduzida, apenas, pelas coisas que quer, ou, não quer fazer; mas, pelo dharma. Pelo entendimento de que o que deve ser feito é aquilo pela qual ela é responsável. Todos nós possuímos responsabilidades, papéis que precisam ser desempenhados, mesmo que, muitas vezes não estejam nas nossas listas daquilo que desejamos fazer.
Ao mesmo tempo, essa pessoa é capaz de receber os resultados das suas ações, como prasāda; ou seja, aquilo que ele precisa experimentar naquele momento da vida, no seu processo de amadurecimento. Nada daquilo que acontece conosco, na vida é por acaso. Tudo está nessa ordem; nessa inteligência, que é Īśvara; que é o dharma.
Isso é a capacidade de não levar nada para o lado pessoal, como, normalmente, pensamos: “o universo só pode estar de brincadeira comigo.”
Haverá conquistas e, haverá também, muitos momentos de frustração. Samatvam; ou a equanimidade, como ensinado por Krsna, na Bhagavad Gītā, é a chave para lidar com os pares de opostos.
A Bhagavad Gītā diz:
Yadā te mohakalilaṃ buddhirvatitariṣyati
Tadā gantāsi nirvedaṃ śrotravyasya śrutasya ca (BG 2;52)
“Quando o intelecto se liberta de toda a confusão, então, se conquista o desapego relativo aquilo que já foi escutado e, aquilo que ainda será escutado.”
O desejo por segurança, prazeres e reconhecimento. Tudo isso nos é dito, ao longo da vida, como objetivos que nos proporcionam a felicidade.
De fato, temos a experiência da felicidade quando alcançamos esses objetos. Mas, junto da felicidade, oriunda desses objetos, não podemos esquecer que o sofrimento vem no pacote.
Por que o sofrimento vem no pacote? Porque essa felicidade é efêmera. Ela está atrelada ao objeto e, todo objeto tem um tempo de duração. Portanto, aquilo que existe hoje, certamente, deixará de existir amanhã. Ainda existe um outro agravante: mesmo que o objeto ainda exista; pode ser que a sua mente fica cansada dele.
Então, aquela felicidade, sustentada por um objeto, se dissolve, dando espaço àquela sensação de vazio, mais uma vez, que acaba em sofrimento.
A falta de discriminação é algo que faz com que a pessoa se dedique cada vez mais aos objetos do que a esse olhar relativo à ela mesma.
Embora as upaniṣads me digam que o problema sou eu mesmo; continuo acreditando que esse problema está lá fora, em algum lugar. Eu culpo as estrelas.
Eu acredito que o problema está nos objetos que me cercam e, que portanto, me limitam. Quando, na verdade, o problema está na confusão instalada na minha mente.
Por isso, ao longo da vida, escutamos, várias vezes sobre problemas e soluções; meios e fins. Uma lista infindável de coisas à fazer agora e, mais tarde: “arrume um emprego estável, se case, tenha filhos, etc…”
E, certamente, ainda há coisa que serão ouvidas e, que serão colocadas como soluções finais para todos os seus problemas.
Vedānta, então, nos apresenta essa proposta revolucionária; que é olharmos para nós mesmos como pessoas já completas e satisfeitas.
Vedānta nos apresenta a ideia de que felicidade não é um objeto e, portanto, não é fruto de algo que possa ser feito pela gente, ou que tenha relação com os objetos à minha volta; com as condições e situações que vivencio. A felicidade é inerente a todos nós.
O que poderia ser mais atraente à mente humana do que isso? Qualquer pessoa pode se dizer desapegada, até que algo novo e interessante se apresente diante dela.
A própria Gītā, fala sobre o Veda como uma forma de distração para mente; pois ele fala sobre todos esses outros objetivos: artha, kāma e dharma.
E, esses objetivos, não parecem diminuir. Quanto mais eu os realizo, mais outros surgem. Dessa maneira, a lista de coisas que pareço precisar fazer para ser feliz, também aumenta.
Nesse ponto, eu perco de vista o que é karma yoga. As ações tornam-se simples ferramentas para objetivos limitados em si mesmos. Não consigo mais enxergar a ação como um instrumento para o meu amadurecimento. Quando eu compreendo isso, a vida torna-se muito simples.
Esses objetivos são descritos pelo Veda de forma tão floreada e elaborada, que é bem fácil que a mente perca de vista o verdadeiro propósito desse ensinamento, que é mokṣa.
Krsna faz uma crítica a isso, nos versos 42 e 43 do capítulo 2 da Bhagavad Gita:
“Yāmimāṃ puṣpitāṃ vācam pravadantyavipaścitaḥ
Vedavādaratāḥ pārtha nānyadastīti vādinaḥ”
“Kāmātmānaḥ svargaparāḥ janmakarmaphalapradām
Kriyāviśeṣabahulāṃ bhogaiśvaryagatiṃ prati”
“Oh! Filho de Pṛthā, aqueles que não têm discernimento, que estão presos aos rituais prescritos pelo Veda e, seus resultados. Afirmando que não há nada mais do que isso (ensinado pelo Veda).
Esses, que estão muito desejosos pelo paraíso e, acreditando que isso é moksa. Para a conquista de poder e prazeres, vivem falando de forma floreada desses rituais especiais que podem trazer melhores nascimentos e vários outros resultados.”
Patañjali dedica o terceiro capítulo dos yogasūtras para falar sobre vibhūti; ou seja, as conquistas oriundas de uma vida de yoga. Como as pessoas podem, facilmente, perder o foco, que é mokṣa, quando conquistam determinadas coisas ou, capacidades que antes não possuíam. São coisas bastante sedutoras.
Nesse momento, é necessário lembrarmos de Naciketas e sua firmeza, diante das propostas de Yāma, o senhor da morte.
Ele oferece a Naciketas tudo aquilo que, facilmente, seduziria a maioria de nós. Mas, Naciketas se mantém firme no desejo de conhecer aquilo sobre o qual nem o senhor da morte tem a capacidade de tocar.
Mais à frente, Kṛṣṇa, fala mais sobre o tema:
“Prajahāti adā kāmān sarvān pārtha manogatān
Ātmanyevātmanā tuṣṭaḥ sthitaprajñastadocyate” (BG 2;55)
“Quando uma pessoa abre mão de todos os desejos que surgem na mente. Feliz em si mesma; contente em si mesma. Essa pessoa está firme no conhecimento do Ser.”
Esse verso da Gītā, também tem uma relação com o sūtra 37 desse capítulo, que veremos adiante.
Tasmādasaktaḥ satataṃ kāryaṃ karma samācara
Asakto hyācarankarma paramāpnoti pūruṣaḥ (BG 3;19)
“Portanto, sempre aja da melhor forma possível, sem apego aos resultados. Pois, ao agir com essa atitude, aquilo que existe de maior é alcançado.”
Yasya sarve samārambhāḥ kāmasaṅkalpavarjitāḥ
Jñānāgnidagdhakarmāṇaṃ tamāhuḥ paṇḍitaṃ budhāḥ (BG 4;19)
Aquele, cujo todas as ações são livres do apego (aos seus resultados); cuja as ações foram purificadas pelo fogo do conhecimento, são reconhecidos como sábios por aqueles que tem o conhecimento (de brahman).”
Kāyena manasā buddhyā kevalairindriyairapi
Yoginaḥ karma kurvanti saṅgaṃ tyaktvātmaśuddhaye (BG 5;11)
Livres do apego, os karma-yogīs, agem através do corpo, mente, intelecto e sentidos para a purificação da mente (antahkaranaśuddhi)
Yadā hi nendriyārtheṣu na karmasvanuṣajjate
Sarvasaṅkalpasannyāsī yogārūḍhastadocyate (BG 6;4)
Quando alguém não está apegado nem aos sentidos e às ações; então, é dito que tal pessoa é livre, pois essa pessoa renunciou à causa de todos os desejos (a identificação com o ator).
Compreenda que não há uma vida livre dos desejos, literalmente. O que deve ser desenvolvido é o entendimento de que Eu não sou o ator. Eu não sou quem deseja, quem age (movido pelo desejo) e, quem desfruta do resultado. Isso é sarva-karma-sannyāsa, ou, jñāna-karma-sannyāsa.