Para que o universo se manifeste, é necessário uma interação dos guṇas; que, segundo essa visão é a essência de todo o universo.
Por isso, Saṅkhya parece uma premissa válida, pois estabelece algo bastante lógico, que não é diferente do que experimento todos os dias: o fato de que sou consciente dos objetos que estão à minha volta. Eu, como o sujeito, diferente do objeto.
Uma idéia simples de ser refutada se lembrarmos do sono profundo. O estado da mente, no qual todos os objetos desaparecem, mas, Eu presencio a ausência desses objetos. Ou, o sonho, como será mostrado mais à frente.
Portanto, mesmo que os guṇas desapareçam; Eu jamais desapareço.
Se estas afirmações fossem descartadas, haveria a mesma visão que vedānta.
Se vedānta e saṅkhya entendem que puruṣa ou ātmās não podem se associar a qualquer tipo de objeto, ambos entendem que isso é mokṣa. Mesmo que vedānta não fale sobre vários ātmās, mas aceitamos, aqui, a ideia de que o ātmā é livre, para estabelecer algo em comum.
Isso é essencial, as diferenças deveriam ser deixadas de lado e focarmos naquilo que é comum, pois esta é a questão fundamental: mokṣa.
Enquanto o universo for encarado como real. Enquanto puruṣa for encarado como diferente de Īśvara, eles nunca poderão ser considerados como livres de limitação, pois um limita o outro pelas suas qualidades.
Īśvara não é o ator. Mesmo que ele seja o criador, mantenedor e destruidor do universo; ele não é o ator, pois, para ele, não existe confusão (avidyā) entre o ator e a consciência. A capacidade de criar não é um atributo de Īśvara; é a sua manifestação (prakṛti). Portanto, não está sujeito ao resultado da ação (karma phala) e, tampouco sujeito a kāma, o desejo de realiza-las e desfrutar delas.
Seria como admitir que a onda e o oceano são “coisas” separadas. Como existiria onda sem água?
Mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sacarācaram
Hetunānena kaunteya jagadviparivartate (BG 9;10)
Graças a Mim, a constante presença, prakṛti cria o universo; consistindo de seres animados e inanimados. Por causa disso, Arjuna, é que o mundo está em constante transformação.
Saṅkhya olha para puruṣa e prakṛti seguindo de forma separada e paralelamente. O criador (existência), separado da criação (tempo e espaço). Prakṛti parece criar tudo sozinha, enquanto o ātmā, permanece isolado. Prakṛti não é independente do ātmā. É uma sobreposição e, não existe separado do ātmā. Assim como a sobreposição da cobra, não existe sem a corda. Um é sat e o outro é mithyā. Portanto, continuam sendo um. Se não compreendemos isso bem, acabamos em dualidade.
O ponto é que o tempo e o espaço existem na consciência. Não existem separados dela.
“O tempo não é uma realidade, mas um conceito ou uma medida”; diria, o orador grego, Antifonte.
O Puruśasūkta diz: puruṣa eva idam sarvam yad bhūtaṃ yacca bhavyam. Puruṣa é tudo aquilo que existe agora; que já existiu e, ainda existirá. Nada existe fora da existência, que é brahman.
Portanto, prakṛti não está separado de puruṣa. Não é diferente de Īśvara. Assim como a onda não está separada da água.
Essa é a visão apresentada na Bhagavad Gītā, através de palavras diferentes. Isso que Patañjali chama, aqui, de Puruṣa, na Gītā é chamado de svarūpa-prakṛti. Essa palavra, prakṛti, significa prakarṣena kṛtiyogyatvāt prakṛtiḥ; ou seja, “aquilo que possui a capacidade de criar”; ou karaṇa, a causa. Ou seja, é a causa de tudo. Sem ela, nada existiria. É o Ser. Puruṣa é a essência de prakṛti; que é māya.
Apenas para efeito de definição: māyā é aquilo que é aparente. Mithyā é a criação; o manifesto. Essa manifestação, no indivíduo é avidyā.
Essa prakṛti pode ser chamada de cit; existência, como vemos na expressão sat-cit-ānanda. Cit é a existência, que é inegável (sat), que é livre de limitações (ānanda). Portanto, essa prakṛti sou Eu, o ātmā.
A Gītā, também nos apresenta um desdobramento dessa prakṛti; chamada de svabhāva-prakṛti. Ela é o efeito; kārya. É a manifestação dos cinco elementos básicos que constituem o universo manifestado; como veremos mais à frente (no comentário do sūtra 19 do segundo capítulo), na citação sobre o Tattvabodha e o processo de criação e desenvolvimento desses elementos, dos sentidos e da mente, resultando no indivíduo.
Bhūmirāpo’nalo vāyuḥ khaṃ mano buddhireva ca
Ahaṅkāra itīyaṃ me bhinnā prakṛtiraṣṭadhā (BG 7;4)
Terra, água, fogo, ar, espaço, mente, intelecto e, a noção de ator; constituem a minha (de Kṛṣṇa) prakṛti e, é dividida em oito partes.
O indivíduo é svabhāva-prakṛti; pois ele é o resultado de todos esses elementos juntos. Aqui, chegamos nesse conceito de māyā ou mithyā; que deve ser bem compreendido como um resultado. Como algo que surge nesse eixo tempo-espaço. Mas, que de forma alguma, é uma ilusão, como muitos acreditam ser. O indivíduo não é uma ilusão. Ele possui essa realidade relativa, sujeita ao tempo-espaço; diferente do que vimos acima, em relação ao conceito de sat, que é aquilo que é sempre existente e, independe de qualquer coisa, pois, não é um resultado.
Daivī hyeṣā guṇamayī mama māyā duratyayā
Māmeva ye prapadyante māyāmetāṃ taranti te (BG 7;14)
De fato, a minha māyā, que é a constante transformação, devido aos três guṇas, que pertencem a Mim; é difícil de ser atravessada. Somente aqueles que buscam, apenas, a Mim é que atravessam essa māyā.
Esse indivíduo é uma upādhi, ou seja, uma sobreposição. O indivíduo está sobreposto no ātmā; no sentido de que ele existe, apenas, porque o ātmā existe.
Esse desdobramento de todos esses elementos, para demonstrar como o universo se manifesta é uma técnica de ensino, que recebe o nome de Prakriyā; que é uma argumentação para embasar a explicação, que está sendo dada. Aqui, no caso, é chamada de sṛṣṭi-prakriyā; ou seja, uma argumentação sobre a criação. Tal argumentação aparecerá Chāndogya Upanisad, quando o sábio Uddālaka, conta ao filho, Śvetaketu, que antes da criação do universo, existia apenas um. Isso que existia, era sat; essa existência, inegável, descrita nos parágrafos anteriores, que é advitīya; não limitada por outro e, livre de outras partes. Pūrṇam, como vemos no mantra de paz.
Portanto, esse desdobramento não é algo ao qual devemos nos prender em um nível intelectual; pois, o Ser não é conhecido intelectualmente. Há outras upaniṣads e outras composições que farão esse desdobramento com menos ou mais elementos. Portanto, não é uma fórmula engessada. Não devemos nos prender à contagem dos elementos, mas, sim, ao entendimento de que todos os elementos existem por causa do Ser; são uma manifestação do Ser.
Então, Uddālaka ensina sobre a criação do universo e seus elementos, a partir dessa existência; inegável. Ele menciona, apenas, três elementos e, isso é interessante para que não fiquemos presos à uma fórmula engessada sobre a criação do universo; pois, no fim das contas, a sua essência é ānanda, ou seja, livre de limitações. Portanto, o foco não está em quantos elementos existem; mas, naquilo que sempre existe.
Para Uddālaka, existem três elementos: terra, água e fogo. Portanto o ātmā, que é brahman, é a essência para a manifestação desses elementos; assim como o barro é a essência para a manifestação de todos os objetos feitos de barro.
Essa é a explicação para a dúvida que pode surgir acerca do tema de brahman não se manifestar. Se ele não se manifesta; se ele não está sujeito à mudanças, como todos os nomes e formas surgem? Da mesma maneira que todos os objetos feitos de barro surgem, sem que o barro tenha se transformado em outra coisa. E, quando esses nomes e formas de barro deixarem de existir, continuarão sendo barro.
Etadyonīni bhūtāni sarvāṇītyupadhāraya
Ahaṃ kṛtsnasya jagataḥ prabhavaḥ pralayastathā (BG 7;6)
Compreenda que todos os seres e elementos têm a sua causa nessas duas parkṛtis. Eu sou aquele, a partir do qual todo o mundo existe e, em quem tudo se dissolverá um dia.
Yato vā imāni bhūtāni jāyante yena jātāni jīvanti yatprayantyabhisaṃviśanti (Taittirīya Upaniṣad 3;1)
Busque compreender que brahman é aquilo, a partir do qual todos surgem; através do qual, todos se sustentam e, para o qual todos retornam.
Então ele diz para o seu filho: isso que é inegável é o ātmā. Todo o resto é criado a partir dele. O corpo é criado, a mente e os sentidos. Aquilo que nunca foi criado; ou seja, sempre existiu, é o ātmā. Lembremos, mais uma vez, do mantra de paz. Aquilo que existia antes da criação; ainda existe, da mesma forma, depois da criação. É invariável. Portanto, Śvetaketu, tat tvam asi.
Portanto o advaitin tem a autoridade para dizer que ātmā é livre de limitação; diferente daquele que defende a visão dual do universo.
O que vedānta quer mostrar é que toda relação com o universo é relativa, não é absoluta; enquanto saṅkhya afirma que esta relação é real. Se aceitarmos esta premissa, mokṣa não é possível
Mesmo que este ilimitado, consciência, inteligência, ou Deus, não possa ser conhecido através dos sentidos, ou concebido pela mente, é aquilo que existe, que não pode ser negado, que tudo sustenta.