A palavra yoga, em sânscrito, assim como outras, pode assumir muitos significados, dependendo do contexto; como unir, um meio ou método, um caminho, riqueza, um truque ou engano, um compromisso ou negócio, misturar ou colocar junto, encomendar, adequação ou esforço.

Embora a palavra yoga, em um contexto mais simplório ou, até mesmo separada de outros contextos, signifique união; veremos, ao longo dos nossos estudos, que em última instância, a palavra significa unidade. No sentido de que não existem elementos separados ou diferentes entre si mesmos.

Este é um tema que pode variar bastante, pelos diferentes pontos de vista que analisam o yoga como um conjunto de práticas, ou, um corpo de conhecimento e, até como um fim em si mesmo.

Segundo o sociólogo Max Weber, “um cientista é inspirado pelos próprios valores e ideais, que o levam a escolher e a definir os temas e o objeto de seus estudos.” Para ele, os cientistas nunca abordam a realidade empírica de maneira “objetiva”, mas trazem consigo as questões e os interesses provenientes de seus valores.

 

Portanto, se a realidade cultural é infinita, uma investigação exaustiva, que leve em consideração todas as possibilidades ou variáveis implicadas em determinado acontecimento, torna-se uma pretensão inatingível. Por isso, o cientista precisa isolar aquilo que considera significativo: trata-se, afinal, de um esforço cognitivo que permite a avaliação da importância de um fenômeno tanto para ele quanto para a cultura e a época em que se insere.

Este é um debate que deve aguçar a curiosidade do praticante, para que, através das suas escutas e estudos, ele tenha a capacidade e liberdade de tirar as suas próprias conclusões, pelos argumentos que lhes são apresentados, ao longo de sua jornada de estudos. É, extremamente, improvável, como possamos tirar conclusões mais profundas nos nossos primeiros anos de estudo sobre o tema. É preciso mergulhar com profundidade e curiosidade para dar-se conta do que o yoga, de fato, é.

Por causa de uma ignorância essencial, não temos a capacidade de enxergar que o que permeia tudo aquilo que existe, é a própria existência. Parece uma frase sem pé, nem cabeça, mas nos faltam recursos linguísticos para expressar algo, que na realidade, não pode ser expressado por elas. Pois, naturalmente, não pode ser definido ou limitado por elas; mas, que invariavelmente existe.

Constantemente nos perguntamos quem somos. Podemos não saber a resposta, mas, não podemos ignorar que somos; que existimos. Esta é a realidade última de tudo. Por isso, yoga não é união e, sim, unidade. O entendimento de que tudo é um e, que este um não me exclui. Portanto, não é diferente de mim mesmo.

Este é o coração das Upaniṣads, que aparecem como composições védicas, que assim como a filosofia, recusam a aceitar uma resposta baseada em mitos ou esoterismos.

Por isto, gosto de ressaltar que o yoga não representa um fim em si mesmo. Não é uma prática que fornece um resultado pontual. O yoga é uma continuidade; por isto é chamado de um estilo de vida na Bhagavad Gītā. Um estilo de vida que envolve todas as nossas responsabilidades; todos os nossos papéis diários.

Gosto muito de um significado que é dado no segundo capítulo da Bhagavad Gītā e, que será repetido muitas vezes por aqui, que diz que o yoga é fazermos o melhor que pudermos todos os dias.

Por que fazer o melhor sempre? Pois, quando faço o meu melhor, estou em paz comigo mesmo. Não há agitações na minha mente, causadas, possivelmente, por remorso por uma conduta inadequada, ou por ter feito algo de forma inconsequente ou pela metade.

Algo que nos conduz a outro significado da palavra yoga, dado por Patañjali em seus yogasūtras, quando ele diz que yoga é a capacidade de desenvolver uma mente menos reativa.

Quando a mente torna-se menos reativa, desenvolve-uma apreciação e um espaço para escutar e questionar sobre a minha natureza.

Este imenso desejo do ser humano em existir em comunhão com aquilo que é considerado o divino, não é, então, um resultado, um fruto de um esforço; mas, o entendimento, através de uma mente clara e madura (cultivada através de uma vida de yoga), de que tudo o que existe é manifestação divina, inclusive eu. Neste sentido, o yoga apresenta-se muito mais como um meio do que um fim em si mesmo.

Isto é jñāna-yoga, que pode ser considerada a maturidade desenvolvida através de uma vida de ações conscientes, que tornaram-se minhas ferramentas para afiar a mente e, compreender a unidade.

Por isso, podemos considerar que yoga é muito mais do que um simples estado; como muitas composições o consideram. Estados estão em constante transformação. Mas, existência, sempre é. Não está sujeita à transformações. Assim como Eu, testemunha dos diferentes estados que vivenciei ao longo de uma vida. Este entendimento é yoga.

A Upaniṣad ensina em seu coração, que Eu sou tudo aquilo que existe, ou tudo aquilo que existe sou Eu; através das mahāvākyas, tais como aham brahmāsmi ou tat tvam asi.

Por outro lado, yoga pode ser compreendido como um estado de comunhão, ou, união. Especialmente, quando analisamos os yogasūtras de Patañjali, ou composições tântricas. 

Além destas composições, podemos levar em consideração o que é apresentado no karma-kāṇḍa. Nesta porção do Veda, existe este conceito de união como aquilo que é o objetivo mais alto do ser humano: a felicidade. 

Esta felicidade pode apresentar-se, a partir, dos puruṣārthas; da união com os nossos objetos de desejo; conquistando, assim, a felicidade, mesmo que efêmera. Mas, também, existe este desejo de união com o divino, com aquilo que é considerado maior do que eu, o indivíduo, como aquilo que me libertará, definitivamente, de todos os males.

Embora seja preciso definir o que está unindo-se a quê e, se de fato, é uma união ou um reconhecimento de que nunca houve nada separado. Como vimos acima, uma questão de ignorância essencial.

A palavra samādhi, muito usada por Patañjali, pode definir este estado, ou mesmo, mokṣa; o objetivo humano mais alto, segundo as Upaniṣads.

Como já disse antes, este é um tema que deve ser deixado para o praticante refletir. Muitos argumentos serão apresentados à frente, para que a sua reflexão seja feita.