अपरिग्रहस्थैर्ये जन्मकथंतासंबोधः॥३९॥
aparigraha-sthairye janma-kathaṁtā saṁbodhaḥ ॥39॥
Quando compreendemos que não é necessário apoiarmo-nos no acúmulo de objetos, para que reconheçamo-nos como essa pessoa plena; isso sinaliza o desenvolvimento de uma atitude de renúncia. Essa renúncia aos desejos é considerada, aqui, como aquilo que não causará mais um nascimento.
É a renúncia ao papel de ator. É o entendimento de que Eu não sou este ator.
Segundo o Veda, o ator, sendo o produtor da ação, receberá, obrigatoriamente, o seu resultado. Enquanto eu acredito ser o ator; também acredito que os resultados são meus (na forma de puṇyam e pāpam). Esta crença fortalece a ideia que estou preso a um suposto corpo causal; que por sua vez, causará um novo nascimento.
Portanto, Patañjali considera, neste sūtra, que os desejos não realizados são a causa desse nascimento e de supostos próximos nascimentos.
Porém, mais do que o debate sobre supostos nascimentos, o que deve ser observado é a renúncia em relação à essa ideia de que eu sou este indivíduo, que está sujeito ao nascimento e a morte. Ou seja, a renúncia ao conceito do samsārī.
O debate, proposto pela interpretação de alguns comentaristas dos sūtras, pode acabar induzindo o estudante a ficar preso em questões que, no fim das contas, podem ser consideradas “café pequeno”; no sentido de que não há razão para ficar debatendo suposições, rituais ou práticas auxiliares, quando, na verdade, o grande objetivo é o entendimento daquilo que é livre, até mesmo, dessas limitações.
tasmai sa hovāca
dve vidye veditavye iti ha sma
yadbrahmavido vadanti parā caivāparā ca (MU 1;4)
A ele disse: É preciso conhecer dois tipos de conhecimento — é isso que nos dizem os conhecedores de Brahman. São eles o Conhecimento Superior e o conhecimento inferior.
tatrāparā ṛgvedo yajurvedaḥ sāmavedo’tharvavedaḥ
śikṣā kalpo vyākaraṇaṃ niruktaṃ chando jyotiṣamiti .
atha parā yayā tadakṣaramadhigamyate (MU 1;5)
Desses dois, o conhecimento inferior é o Rig-Veda, o Yagur-Veda, o Sama-Veda, o Atharva-Veda, siksha (fonética), kalpa (rituais), vyakaranam (gramática), nirukta (etimologia), chandas (métrica) e jyotis (astronomia); e o Conhecimento Superior é aquele pelo qual se alcança o Brahman Imperecível.
yattadadreśyamagrāhyamagotramavarṇa-
macakṣuḥśrotraṃ tadapāṇipādam .
nityaṃ vibhuṃ sarvagataṃ susūkṣmaṃ
tadavyayaṃ yadbhūtayoniṃ paripaśyanti dhīrāḥ (MU 1;6)
Por meio do Conhecimento Superior, os sábios contemplam em toda parte Brahman, que de outra forma não pode ser visto ou apreendido, que não tem raiz nem atributos, olhos nem ouvidos, mãos nem pés; que é eterno e onipresente, onipresente e extremamente sutil; que é imperecível e a fonte de todos os seres.
śikṣāśāstrārthasaṅgrahaḥ
oṃ śīkṣāṃ vyākhyāsyāmaḥ . varṇaḥ svaraḥ . mātrā balam .
sāma santānaḥ . ityuktaḥ śīkṣādhyāyaḥ (TU 1;1)
Om! Explicaremos agora a ciência da fonética: sons, acento ou tom, qualidade ou medida, o esforço empregado na articulação, uniformidade e continuidade na pronúncia das letras. Assim foi declarada a lição sobre fonética.
Śaṅkara faz um comentário em relação a este mantra, dizendo que existe uma grande importância nas palavras das Upaniṣads e, por isto, o estudante não deve ser indiferente ao esforço correto da pronúncia das palavras e a fonética deles. Para Śaṅkara, existe uma diferença entre os mantras da primeira parte do Veda e os mantras das Upaniṣads. Enquanto o primeiro é recitado para fins específicos como artha, kāma e dharma; o mantra das Upaniṣads não produzirá coisa alguma, mas, o entendimento de suas palavras, produzirá a clareza suficiente para a compreensão de que Eu sou satyam jñānam anantam brahma.
Outra composição auxiliar de Śaṅkara, chamada de Bhaja Govindam, também aborda este mesmo tema:
bhaja govindaṃ bhaja govindaṃ
govindaṃ bhaja mūḍhamate |
samprāpte sannihite kāle
nahi nahi rakśhati ḍukriṅkaraṇe ‖ 1 ‖
Cante Govinda, cante Govinda, cante Govinda, ó tolo! As regras da gramática não te salvarão na hora da tua morte.
É interessante analisarmos o conceito de morte, aqui. Pois, entendemos que a morte existe, apenas, para o ator; não para o Ser. O que Śaṅkara salienta é que de nada adianta se apegar à erudição, no sentido de tornar-se um expert no que o Veda prescreve como uma vida de dharma (faça isto, evite aquilo), se eu não tenho o entendimento de quem de fato Sou. A erudição em si, não é o problema. A questão é que muitas vezes ela reforça a identificação com o ator.
Todo o propósito do conteúdo das Upaniṣads é mostrar-nos que, em última instância, não somos este ator. Por isto, Śaṅkara recomenda “cante Govinda”, pois é um dos milhares de nomes que fazem referência aquilo que é sempre existente; aquilo que é livre de limitações, que Eu sou.
traiguṇyaviṣayā vedā nistraiguṇyo bhavārjuna
nirdvandvo nityasattvastho niryogakṣema ātmavān (BG 2;45)
O tema do Veda (Karma kāṇḍa) é relativo aos três guṇas, oh Arjuna! Seja aquele que é livre destas três qualidades. Do sofrimento, oriundo dos pares de opostos. Aquele sempre firme em sattva-guṇa; livre do apego e aversão. Tenha o comando sobre a mente e os sentidos.
Kṛṣṇa está ensinando para Arjuna não olhar para o Veda de maneira a encontrar uma situação melhor dentro do saṁsāra. Ele pede que Arjuna tenha um pouco mais de discernimento. Se houve a oportunidade de chegar até o Veda, como um meio de conhecimento; não o utilize como uma ferramenta para perpetuar o saṁsāra. Não faz sentido algum!
Então, você chegou até aqui, graças à história da sua vida; as suas experiências. Isso é maravilhoso; mas, isso já é passado. Por que ficar debatendo o passado? Tentando encontrar uma lógica entre o que é vivido hoje e, o que pode ter acontecido em supostas vidas passadas? Tudo isso vira distração. Um debate que nos afasta da verdadeira questão que é “quem Eu sou?”
Não permita que a oportunidade desse entendimento se perca por assuntos menores.
Nirāśīryatacittātmā tyaktasarvaparigrahaḥ
Śārīraṃ kevalam karma kurvannāpnoti kilbiṣam (BG 4;21)
Aquele que é livre de expectativas e, que possui o corpo, a mente e os sentidos sob seu comando; que abriu mão de todas as suas posses. Fazendo, apenas, aquilo que é necessário para se sustentar; é o sábio.
Nesse verso da Gītā, é necessário compreender o que é ser livre de expectativas. Pois, não existe uma mente livre de expectativas. Pode existir uma mente livre da necessidade de que essas expectativas de concretizem. O entendimento de que aquilo que Eu sou, não é resultado das ações que realizo.
O sábio é aquele que se deu conta de que é livre de tudo. Ele descobriu a sua natureza como a felicidade, livre de limitações. E, sendo livre de limitações; compreende que essa felicidade não pode expandida por outras coisas. Essa felicidade é plenitude.
Uma pessoa que vive uma vida com a atitude de karma yoga, com maturidade, está desenvolvendo esse olhar maduro sobre si mesma. Ela não está mais sujeita aos seus gostos e aversões. Por isso, não precisa que seus desejos se concretizem para realizar que é feliz.
Aparigraha, literalmente, significa a não necessidade de possuir tudo o que está à sua volta.
Yogasthaḥ kuru karmāṇi saṅgaṃ tyaktvā dhanañjaya
Siddhyasiddhyoḥ samo bhūtvā samatvaṃ yoga ucyate (BG 2;48)
Faça aquilo que deve ser feito; ó Dhanañjaya. Livre de apego; firme no yoga. Equilibrado diante do sucesso e do fracasso; esse equilíbrio é chamado de yoga.
Saṅgaṃ tyaktvā significa abrir mão do apego aos resultados. Mais uma vez, podemos usar como referência o que é karma-yoga. Não é abrir mão dos resultados. Eles virão de qualquer forma se existe ação. Mas, o apego de que eles sejam, exatamente, como desejo; e, também, a identificação com cada um deles.
Possuir uma variedade de coisas, pode ser um problema. Uma pessoa pode ter uma gigantesca casa e, isso toma muito tempo e dinheiro para se manter. Essa pessoa pode considerar vender a casa, investir o dinheiro e se mudar para um apartamento menor. Mas, haverá o problema em relação ao que fazer com toda a mobília; pois não caberá nesse apartamento. Então, primeiro, a pessoa compra uma casa e a entulha de coisas. Depois, não sabe o que fazer com esse tanto de coisas quando resolve se mudar. A pessoa não sabe o que quer da vida. No fim das contas, tudo isso é fruto da confusão nas nossas mentes e, da sensação de insuficiência que temos em relação a nós mesmos.
“Por que, então, tantos clamores à Fortuna? Parece-me que procuras aplacar a necessidade por meio da abundância.
Quando é justamente assim que se chega a um resultado contrário, pois a manutenção da riqueza requer muito mais recursos. Há muita verdade naquele famoso ditado que diz ‘quanto mais coisas se tem, maiores as necessidades e as preocupações.’ E, ao contrário disso, não têm grandes preocupações aqueles que limitam as suas posses aos bens necessários para satisfazer às necessidades naturais e não aspiram às coisas supérfluas oferecidas pela abundância.
Oh, que estranha felicidade esta, proporcionada pelas riquezas deste mundo: para obtê-la é preciso abdicar da própria tranquilidade.” (Boécio; A consolação da filosofia, Livro II; Prosa 5)
O sábio é aquele que não possui esse apego às coisas. No sentido de que ele compreende que aquilo que ele é, não depende do que ele tem. Tal pessoa é livre para se mudar para lá e para cá; sem nenhum remorso de ter que deixar algo para trás. Tal pessoa, age de forma a sustentar-se, sem a necessidade de grandes acúmulos. O seu foco, em primeiro lugar, está na manutenção da sua saúde. O resto é, apenas, acessório.