Normalmente, nos referimos a este corpo de conhecimento chamado de Veda, através da palavra “escritura”. Esta, talvez, não seja a palavra mais adequada. Oriunda do latim, scribere, que significa “escrever”. O termo equivalente em sânscrito, seria śabda, do radical śabd, que significa “emitir um som”ou “chamar”. Para os hindus, a escritura, na verdade, é aquilo que foi escutado e transmitido oralmente. E não aquilo que foi escrito. Todo este corpo de conhecimento desabrocha quando é falado e ouvido; muito mais do que quando é, simplesmente, colocado em frias folhas de papel, sem o olhar experiente do professor, que revela a profundidade de cada palavra. Este é o primeiro passo a ser dado quando este estudo é abraçado: śravaṇam. Analisaremos, profundamente este tema mais adiante.
Dentro do hinduísmo, a autoridade do Veda (oriundo do radical sânscrito vid; que significa conhecer), foi transmitida através das palavras, sendo a sua fonte, conhecida como “Śruti” (aquilo que foi escutado).
Isto, que foi escutado, não é assumido pela ortodoxia como algo que foi composto; porém algo que sempre existiu. Portanto, isto que sempre existiu, em algum momento foi revelado aos seres humanos. Existe um mantra no Ṛg Veda, que diz que “os sacerdotes seguiram a trilha da fala (vāc). Eles a encontraram com os sábios. Tendo a alcançado, a distribuíram de diferentes maneiras.” (10;71;3)
Nesta alegoria, a fala é comparada à uma vaca, cujo as pegadas, os sacerdotes seguem. Eles a descobrem junto aos 7 principais sábios (saptarṣis) e, a libertam através de um ritual. Daí, surge este tema da sacralidade da vaca na cultura da India.
Nos tempos do Veda, a vaca simbolizava a prosperidade econômica. A vaca produzia o leite e o esterco, que poderia ser queimado para aquecer e preparar alimentos. A vaca servia para arar a terra.
Assim como a vaca, vāc, a fala trouxe a prosperidade a todos aqueles que a ouviam; pois representava este conhecimento que liberta o ser humano de todo sofrimento.
Basicamente, aquilo que deve ser conhecido (escutado) é o que, supostamente, tem a capacidade de salvar o ser humano de uma vida miserável.
Embora o Veda seja admitido como uma autoridade, não existe um fundador do hinduísmo, como existe em outras religiões. Ainda sim, veremos a formação de estratos e hierarquias dentro da sociedade da India que, de certa forma, estabelecerá um domínio sobre este corpo de conhecimento.
Esta hierarquia, poderia ser apontada pela palavra sânscrita “ārya”, que significa nobre. Portanto, aqueles que detinham o conhecimento do sânscrito, eram chamados de nobres. Esta interpretação também criou muitos debates e controvérsias sobre a origem de toda esta cultura, religião e conhecimento. Muitas teorias de supostas invasões deste suposto povo nobre, oriundo de outras regiões têm força até hoje em meios acadêmicos e políticos. Cada um tentando arrastar a brasa da sardinha para o seu lado, tentando colocar uma cultura como superior à outra.
Muitas interpretações distorcidas acerca disso apareceram, através de Max Müller, linguista, cientista das religiões, orientalista e mitólogo alemão, um dos casos mais conhecidos. Sua interpretação e tradução literal do Ṛg Veda, fez, realmente, com que as pessoas acreditassem num suposto povo ariano, muito mais avançado do que os nativos da India, que foi dizimado por estes arianos. O fato é que até hoje, não há elementos arqueológicos que possam comprovar tais batalhas entre povos distintos. Diferente, até mesmo, das batalhas de Alexandre, o Grande, relatadas, historicamente, por Plutarco (bem mais tarde) e outros historiadores, até mesmo indianos e que deixou marcas na região que hoje é o Paquistão.
É muito mais provável que tenha havido uma miscigenação natural entre o povo imigrante e os nativos, do que guerras. E, assim, pouco a pouco a sânscritização da região aconteceu; dando origem às primeiras composições védicas desenvolvidas nesta região.
Tais interpretações equivocadas sobre este suposto povo ariano, superior, alimentou crenças que deram força a Adolph Hitler repetir o mesmo tipo de discurso, tanto tempo depois na história.
Embora, este não seja o nosso objetivo, aqui, é importante entendermos o contexto. Como direi mais à frente, há indícios de que o sânscrito não seja algo da India e, que de fato, houve movimentos migratórios, que hoje em dia, podem ser comprovados por estudos genéticos e de tronco linguístico, que parecem ter trazido uma bagagem para aquilo que veio a desenvolver-se, ainda mais, no vale do Hindu.
Não obstante, o hinduísmo é como uma figueira indiana. Esta figueira é conhecida por desenvolver, a partir de seus galhos, raízes aéreas, que por sua vez, se desenvolverão como novas árvores. Existem florestas de figueiras indianas que originaram-se de uma árvore apenas.
Neste sentido, podemos considerar o hinduísmo como um conjunto elaborado e variado de troncos e galhos que representam diferentes símbolos, crenças e práticas que, por sua vez, criam sub-tradições que, em última instância, também interconectam-se.
Dentro deste hinduísmo religioso, podemos observar devotos destes diferentes símbolos, tais como os Vaiṣṇavas, os Śaivas, os Gaṇapatas, os Sauryas, ou aqueles que enxergam o divino nas formas femininas.
Além disso, como veremos mais à frente, veremos outras religiões e culturas brotarem do hinduísmo; como o budismo, o sikhismo. Dividindo vários traços em comum entre elas e distanciando-se, muitas vezes, em outros aspectos.
Yoga em fontes da era védica
Antes de cerca de 500 a.C., há poucas evidências em fontes textuais ou arqueológicas do sul da Ásia que apontem para a existência de técnicas psicofísicas sistemáticas do tipo que a palavra “yoga”, posteriormente, passou a denotar.
Passagens no texto sânscrito (supostamente) mais antigo, o Ṛg Veda (do século XV ao XII a.C.), indicam o uso da meditação com visualizações, e seu famoso hino a um sábio de cabelos longos (10.136) sugere uma tradição ascética mística semelhante a dos yogīs posteriores.
O Atharva Veda, um pouco posterior (c. 1000 a.C.), em sua descrição do Vrātya, que, assim como o sábio de longos cabelos (Keśin), existe à margem da sociedade védica tradicional, menciona práticas que podem ser precursoras de técnicas yogīs posteriores de postura e retenção da respiração, feitas com a atitude de ascese.
Mas é pura especulação afirmar, como fizeram vários autores populares sobre yoga, que o Veda forneça qualquer evidência de prática sistemática de yoga.
Da mesma forma, a própria palavra yoga aparece no Ṛg Veda, mas geralmente em referência à carruagem de guerra à qual os cavalos eram atrelados – “yoke” sendo um cognato em inglês do sânscrito yoga.
Da mesma forma, os famosos selos ‘proto-Śiva’ da civilização do Vale do Indo (que se desenvolveu por volta de 2800 a.C. no atual Punjab e Sindh), apesar de sua popularidade, não oferecem evidências conclusivas de uma antiga cultura yoga.
O Veda, muitas vezes, traz uma linguagem bastante codificada, se assim podemos falar. Por isso, os comentários de Śaṅkara, se fazem tão necessários em composições como a Gītā, as Upaniṣads, etc. É imprescindível a compreensão de cada palavra dentro de um mantra ou um śloka para a plena compreensão da mensagem que está sendo transmitida.
Sendo assim, podemos compreender porque este ensinamento perdeu força dentro da própria Índia, com o florescer do budismo, jainismo e outras correntes de pensamento e de práticas. Pois, esse conhecimento era acessado por poucos e, transmitido para poucos.
Neste sentido, é pertinente olharmos para este corpo de conhecimento/religião, chamado de Veda e quem detinha o seu conhecimento e autoridade. A hierarquia que construiu-se ao redor deles, através dos seus sacerdotes, rituais e valores e, entendermos o que ele colocou à margem também.
O religare, proposto pelo Veda, parecia abraçar, apenas, um estrato da sociedade, deixando, marginalizado um outro.
Por exemplo, entendemos que eram os brahmanes, os detentores deste conhecimento, dos rituais. Algo que alcançava, também, a casta dos guerreiros; mas, aparentemente, deixava o resto de fora.
Levanto este questionamento, aqui, como um exercício de reflexão para todos nós. Pois, entendemos que, na construção de várias religiões, ao redor do mundo, o tema sempre privilegiava alguns e expiava outros. Criando, muitas vezes uma hierarquia intelectual, econômica e, até mesmo, espiritual; pois, a salvação era para, apenas, alguns.
Podemos, até mesmo traçar um paralelo com o sofismo na Grécia. Observe que ao traçar este paralelo, não estamos distantes no tempo. As culturas são distantes, em quilômetros e, podem ter se aproximado por causa das trocas comerciais e, até mesmo por causa da expansão do império macedônio, que chegou às margens da India.
O que desejo ressaltar com esta observação é que o que acontecia com a humanidade e a sociedade em um lugar, nem sempre indicava que seria diferente em outro. Portanto, o sofismo, seria uma forma de levar o conhecimento à estratos da sociedade que não tinham acesso a este conhecimento.
Os sofistas eram contra a ideia de que as leis e os costumes são de natureza divina e universal, pois o homem não é único nem possui uma só forma de pensar: seu pensamento é relativista. Por isso, eles sofreram várias críticas de filósofos. Isso também poderia acontecer em relação aos brahmanes; que se colocavam como únicos detentores deste conhecimento que liberta.
Escrevi, acima, o religare, proposto pelo Veda, pois em seus primórdios, podemos colocar o Veda como uma prática religiosa, sim. E, não obstante, até mesmo a palavra yoga, como religião, como este conjunto de práticas que promovia esta união ao divino.
O chamado Sanātana dharma (hinduísmo) é esta regra (dharma) relativa ao que fazer e o que evitar, apresentada pelo karma-kāṇḍa. O hinduismo, neste sentido, fica restrito à uma religião, composta por dogmas, que estabelecem as margens do comportamento do ser humano para a salvação. Vale, aqui, mais uma vez, o questionamento, a reflexão: este dharma; esta conduta está mais próxima da ideia cristã dos dez mandamentos, como uma tábua para a salvação, ou é uma apoiada na definição da palavra yoga, apresentada no segundo capítulo da Bhagavad Gītā, sobre fazer o melhor possível, sempre, independente dos resultados?
Podemos assumir que o hinduísmo nasce destes ensinamentos religiosos, primordiais da primeira parte do Veda e, culmina, afastando-se desta religiosidade, porém, ainda, com o mesmo objetivo de liberdade, que continuará sendo abordado, em sua porção final, as Upaniṣads.
Contam-nos que o hinduísmo é um sistema social e religioso, altamente, organizado e, por isso, pertencer à uma casta é essencial, senão a característica mais importante de todas. Há outras correntes que dizem que o sistema de castas não é parte integral do que é considerado hinduísmo. Dizem que o hinduísmo é um sistema apoiado na crença da reencarnação e, as Upaniṣads apontam, exatamente, o oposto.
Portanto, vamos chamar o conteúdo deste corpo de conhecimento de “composições” védicas. Estas foram compostas oralmente, no norte da India. A principio, na região do Punjab (que significa 5 rios). E mais tarde, também, mais a leste, incluindo o norte de Bihar.
Embora ainda utilizemos o recurso da linha do tempo – que atualmente possui diversos usos, desde histórico até biográfico –, é sempre importante fazê-lo de forma crítica, entendendo que representa, apenas, convenções. É o que veremos em relação à composição destas diferentes partes do Veda.
A classificação das Āraṇyakas e Upaniṣads seguiu o procedimento das Samhitās e Brāhmaṇas, ou seja, foram inseridas nas quatro correntes védicas. Assim, a Aitareya Āraṇyaka, a Aitareya Upaniṣad e as posteriores Kauṣitaki Āraṇyaka e Kauṣitaki Upaniṣad pertencem ao Ṛgveda. Ambas as Upaniṣads são, basicamente, composições em prosa (séculos VII a VI a.C.). Mas a Aitareya Upaniṣad está inserida entre capítulos da Aitareya Āraṇyaka, portanto, apesar de uma possível datação compartilhada, fica comprometida a expectativa de que a Upaniṣad seja textualmente sempre posterior ao Āraṇyaka! A Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, pertence ao ramo do Śukla Yajur Veda e é uma composição em prosa de Āraṇyaka e Upaniṣad, como indica seu nome, Bṛhad-Āraṇyaka-upanişad. Como mencionado anteriormente, ela faz parte da última seção do Śatapatha Brāhmaṇa e, assim como o Brāhmaṇa, existe nas duas recensões citadas anteriormente. Em sua maior parte, a Bṛhadāraṇyaka Upanişad contém alguns dos conteúdos “upaniṣádicos” mais antigos (cerca do século VIII a.C.?). A Taittirīya Upanişad, uma das primeiras Upanişads em prosa, compõe as seções 7 a 9 da Taittirīya Āraṇyaka, que pertence ao Kṛṣṇa Yajur Veda. A Mahānārāyana Upanișad, compreende a Seção 10 da Taittirīya Āraṇyaka. A Śvetaśvatara Upanișad (cerca do século II a.C.), também pertence a este ramo.
A Katha Upaniṣad, anterior à Śvetaśvatara, também faz parte da tradição do Kṛṣṇa Yajur Veda, mas a curta Īśā Upaniṣad, encontra-se como a última seção da Vājasaneyī (Samhitā) do Śukla Yajur Veda, frustrando assim qualquer expectativa de que a Upaniṣad só pudesse ser encontrada após as seções Brāhmaṇa e Āraṇyaka! Estamos falando de localização textual, não de data. A Īśā é datada mais ou menos no período da Katha. (Lipner; Julius – Hindus, their religious beliefs and practices)
A posição de algumas Upaniṣads no corpus védico não se conforma à uma progressão textual ordenada, ou seja, primeiro a Samhitā, depois o(s) Brahmanas(s), depois a(s) Āraṇyaka(s) e, finalmente, a Upaniṣad. As Upaniṣads nem sempre se encontram no “fim” textual de seu ramo na progressão védica.
Portanto, nem sempre vedānta, significa a porção final do Veda, em termos de data; mas a culminação desta reflexão acerca de brahman; aquilo que existe de maior, como aquilo que é a minha natureza.
Ainda assim, vedānta não é um sampradāya uniforme. A sua visão divide-se em algumas perspectivas diferentes sobre a natureza do divino; do Ser. Para alguns, advaitins, o Ser é um e manifesta-se através de diferentes nomes e formas e, há dvaitins, como os Vaiṣnāvas, que interpretam o divino de uma maneira mais próxima às formas religiosas que conhecemos, separando o indivíduo de deus.
Além disso, os nomes dos textos mencionados nestes parágrafos, embora não sejam exaustivos, podem ser úteis em leituras posteriores para fins de cronologia relativa e identificação de texto ou conceito em um ou outro contexto.
Um período histórico não começa e termina com um único evento, por mais importante e significativo que ele seja. O conhecimento e a cultura são frutos de um acúmulo, que ocorre ao longo dos séculos. Temos, portanto, em nosso modo de viver, contemporâneo, diversos legados de períodos anteriores, dos quais alguns são notórios enquanto outros são menos evidentes.